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Vinho, o álcool tradicional mantido pela sofisticação

Por Alexandre Montagna, Sábado, 8 Agosto 2009 | 08:08

Sobre a manutenção das tradições

Não importa se uma tradição é boa ou ruim, ou se é cruel ou inútil para a maioria da sociedade: ela será mantida e passada adiante se for conveniente para um grupo estratégico de pessoas. Em grande parte das vezes, as tradições favorecem econômica ou politicamente um grupo de engravatados e você nem sabe. Só se vê a parte do teatro, mas não se enxergam os bastidores. É assim que se mantêm as tradições das touradas na Espanha, do churrasco no Rio Grande do Sul, da farra do boi em Santa Catarina, do espancamento e mutilações dos muçulmanos para homenagear o neto do profeta Maomé… Já a tradição da saudação através de cuspe, presente na tribo Masai, bem… esta não deve ter dinheiro rolando por trás das cortinas, soa apenas inocente e melecada, e se perguntarmos aos tribais por que ela é mantida eles provavelmente não saberão responder.

Agora, existe uma outra tradição que não é muito inteligente, mas que recebe um colorido especial para causar uma boa imagem. Vamos a ela.

A boa imagem do vinho

Isso é sszuper (hic) refiñado..

Issso é sszzuper refiñaado.. (hic)

O vinho. Quase todos têm uma boa imagem do vinho, e como não ter? Só ouvimos falar bem dele, que faz bem para o coração, faz bem para frieira, bicho de pé e por aí vai. Há profissionais que recomendam uma ingestão frequente e todos conhecem pelo menos um vivente que beba uma taça diária. Algumas vezes, ao mencionar que o Yôga recomenda a abstinência alcoólica, sou interrogado: – “Mas, e o vinho? Ele não é bom?” Permita-me ser direto: não. Simplificando, vinho é a soma de uva espremida com fermentação alcoólica. Pegue todos os benefícios do vinho e todos os benefícios do sumo de uva e se espante: são iguais! Por que será? Eu respondo: isso ocorre porque a parte elogiável do vinho é exatamente as propriedades da uva. E só. Tire o álcool dessa bebida e você terá um resultado muito melhor: um belo e nutritivo suco, que é ainda mais saudável porque não possuirá o efeito negativo de redução da consciência e intoxicação proporcionadas pelo álcool. Ah, e o suco de uva não te dará dor de cabeça!

Veja a seguir um trecho de um artigo sobre os benefícios do vinho:

“Observou-se que a reatividade dos vasos sangüíneos melhorava nestes voluntários, tanto com o vinho como com o suco de uva. Os achados, sugerem que os flavanóides da casca da uva, encontrados tanto no vinho como no suco da uva, seriam os responsáveis por tais bebefícios.”
http://portaldocoracao.uol.com.br/nutricao.php?id=957

É tão complicado entender essa simplicidade? Não precisa ser PhD para perceber isso.

O vinho é tão bem visto porque fazem uma forte campanha para sua boa imagem cheia de pompa e sofisticação. Nos restaurantes, os garçons o servem com rituais repletos de majestade, utilizando parafernalhas vinícolas dignas da Realeza Britânica. Por outro lado, quando vão servir a preciosa água, em muitos estabelecimentos utilizam copos simplórios, banais, que parece até de requeijão! Esta sofisticação do vinho para enaltecer a imagem do líquido ocorre também no mundo cibernético. Entrei num famoso portal de comércio eletrônico e adivinhe o que havia na seção “presentes sofisticados“? Somente relógios, alguns itens aleatórios e toooodo o resto da página estava preenchido com acessórios referentes ao vinho. Está muito clara a ligação feita entre essa bebida e o requinte. E é assim que preservamos esta tradição. Além dos benefícios do suco de uva, não presta nada no vinho. Nada. Nada! Pois é. Nada.

Não há motivos para colocar o vinho num pedestal. Isso é lavagem cerebral. Lavagem promovida pelo requinte da indústria do ramo. Remova o álcool e aprecie o sagrado sumo da uva, manuseando-o com a mesma pompa e circunstância, e sorvendo-o numa linda taça de cristal.

Beber para se soltar

Há quem beba para se soltar, um pouco, muito, ou para soltar a franga de vez. É compreensível essa atitude dentro de uma cultura repressora como a nossa. Vivemos trancados em nós mesmos, segurando desejos e sentimentos constantemente. Algumas pessoas colocam em suas cabeças que precisam beber um pouco para conseguir conversar melhor. Ora, que enorme declaração de personalidade fraca! Comunicação social é o mínimo que todos nós deveríamos praticar, jamais precisando de uma bebida misturada com álcool para isso. Aliás, toda vez que alguém vem falar comigo com aquele hálito-espanta-tubarão do vinho ou cerveja, eu já desconverso e me abstenho da frustração desse contato: ou meu interlocutor não entenderá minhas palavras, ou esquecerá boa parte do que eu falar. Isso se eu não testemunhar outros sintomas do álcool, tais como falar bobagens, ser inconveniente, ser teimoso, xingar, ofender e envergonhar alguém em público, envergonhar-se em público, paquerar invadindo o espaço vital da vítima, tirar a roupa para fazer um humilhante strip-tease, cair no chão deixando muita coisa à mostra, vomitar, etc.

Muitos sabem que este meu posicionamento está aliado à minha profissão, que é ensinar o life style proposto pelo Método DeRose. E todos os nossos alunos da unidade Moinhos de Vento em Porto Alegre que praticam com identificação, conhecem e vivenciam a nossa filosofia comportamental desrepressora, soltam-se na balada sem precisar de substâncias para isso, sejam elas lícitas ou não. O praticante aprende a ser mais carinhoso e extrovertido em sã consciência. E isso é coerente, afinal, a expansão da consciência é uma meta que buscamos, e cada gota de álcool (sim, cada gota) é um pequeno passo rumo à inconsciência. Quem leva a Alta Performance orgânica, emocional e mental a sério, quer exatamente o oposto dessa redução da lucidez, evitando também qualquer substância nociva ao seu organismo e prejudicial ao bom funcionamento de seu cérebro. O praticante do Método DeRose sabe que o importante na vida é ser feliz, e põe isso em prática muito bem. Poucas pessoas sabem, contudo, que essa felicidade é viável sem ter que prejudicar o corpo e sem ter que ser um maria-vai-com-as-outras nas rodas de conversa com álcool.

Extroversão e carinho com consciência é uma felicidade viável

Extroversão e carinho sem uma gota de álcool é uma felicidade viável.

Além do mais, preciso confessar: nas festas de público diversificado em que compareço, geralmente acham que eu sou quem mais bebeu, e alguns não acreditam que eu esteja de cara limpa. Abaixo, um belo registro feito numa festa de aniversário da minha querida amiga Paula Moreira.

Contemplando a virtuosa dança estão meus amigos Francisco Lima, de tenista, e Pedro Largacha, de lutador de Kung-Fu.

Contemplando a virtuosa dança estão meus amigos Francisco Lima, de tenista, e Pedro, de lutador de Kung-Fu. A Paulinha está de princesa e eu de Rambo Serelepe. “Enche o copo de Guaraná, garçom!!!”

PS.: para os que precisam de um empurrãozinho religioso, fiquem tranquilos. Em nenhuma das traduções antigas e fiéis da Bíblia há indicações de que Jesus tomou vinho. Pelo contrário, o Filho apenas tomou tiyrosh (non-alcoholic grapejuice or sweet wine [1]). Durma com um barulho desses.. até a história dos santos são modificadas para sustentar uma tradição psicotrópica!

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12 respostas para “Vinho, o álcool tradicional mantido pela sofisticação”

  1. Zélia Couto e Santos escreveu:

    Oi Alexandre! Que belo texto. Ainda por cima. porque detesto vinho mas adoro sumo de uva. Detesto o estado de (in)consciência que o vinho dá.
    Antigamente, em Portugal o slogan era: “Beba vinho, porque o vinho dá de comer a 1 milhão de portugueses”
    Felizmente, já não é assim.
    Viva o suminho de uva que é bem bom. Um abraço e espero k nos vejamos no Fest-Yõga de S. Paulo.

    [Responder]

    Montagna Reply:

    Obrigado, Zélia! Puxa, querida colega, uma pena que não te conhecerei pessoalmente nesse festival.. Na dança das prioridades, acabei descartando o Fest-Yôga de São Paulo desta vez. Mas certamente nos veremos noutra oportunidade e, quem sabe, com um belo suminho de uva para regar a conversa. Um abração e um ótimo finde!

    [Responder]

  2. Paula Moreira escreveu:

    Hmmmm delícia!!! E adorei a foto!!! :D

    [Responder]

    Montagna Reply:

    A foto é demais! Impossível eu olhar para ela e não sorrir com as alegres lembranças!

    [Responder]

  3. Sarita Borges escreveu:

    Belo post, querido! Muito pertinente com o momento em que vivemos, em que muitas pessoas, próximas inclusive, defendem o vinho sem saber que o benefício realmente vem da uva. Simplesmente seguem uma tradição sem saber o porquê, como acontece com muitas outras questões. Como eu havia lhe dito, já havia gostado do post antes mesmo de lê-lo por se tratar deste assunto e por conhecer muito bem a opinião do autor, hehe.
    Grande beijo! E, realmente, és o mais animado das festas.. :)

    [Responder]

    Montagna Reply:

    Ahh… que lindo, meu amor! Obrigado pelo teu depoimento de testemunha ocular, hehehe.
    Beijos com gostinho doce de uva.

    [Responder]

  4. Laura Generoso escreveu:

    Oi Alexandre. Muito legal esta explicação. O mesmo sempre acontece comigo e as pessoas não acreditam que não bebo. Mas é muito bom quando estamos juntos e todos não bebemos as festas são muito, muito mais animadas!
    Um abraço de Minas gerais

    [Responder]

    Montagna Reply:

    Que alegria te receber aqui, Laura. É um agito completo quando estamos conosco, e fazemos uma festa daquelas: animadíssima e oxigenada!
    Você está convidada a voltar mais vezes. Um abração de Santa Catarina!

    [Responder]

  5. Gabriel veppo escreveu:

    Amigo
    Me desculpe a intromissão, mas primeiro você é um porre!
    Se você encontrou Jesus ou o Om ou o 13º grau de consciência meditaviva, Legal
    Aproveite e pratique o salutar gesto da tolerância Também
    E vá pesquisar nos livros de auto-ajuda que você com certeza tem em casa e procure expressão
    Empatia. Nada mais chato do que uma pessoa que não bebe ficar criticando a bebida, é como o ateu que critica o crente. Um se acha menos embriagado que o outro.

    Tenha a santa paciência

    [Responder]

    Alexandre Montagna Reply:

    Gabriel, estás desculpado.

    Obrigado pela tua contribuição com ares de desabafo. Certamente vou observar melhor meu modo de expressar opiniões; entretanto, acredita: tento ser empático! Mas o que mais prezo é não falar mal ou não criticar alguém. Isso é importante. Eu não citei nomes, citei?

    Se eu já bebi e hoje observo o hábito da bebida do modo como expus em meu texto, reservo-me no direito de expressar isto.
    Se você se empenha a ponto de vir em meu blog comentar sobre o assunto, solicito que o faça com mais respeito, fidalguia e uma mínima inclinação à concordância.

    De qualquer forma, agradeço novamente opiniões que me obrigam a crescer. Com cordialidade, receberei-te diversas vezes aqui no blog. Um abraço.

    [Responder]

  6. Gustavo escreveu:

    Alexandre,

    Gostei muito desta materia, realmente muito pertinente a situacao atual.
    Apraz-me ver tambem que no teu blog tem um matezinho como logo, esta muito legal.
    Abracos
    Gustavo

    [Responder]

  7. Mário Vendas escreveu:

    Valeu Alexandre!!
    Belo e esclarecedor texto ;)

    Obrigado por compartilhar,

    abraços

    [Responder]

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