
Da nossa necessidade de antropomorfização, fizemos nascer o Pai.
Nos finalmentes da Antiguidade Tardia e primordios da Idade Média, pairava no ar uma grande ignorância acerca de nós mesmos e do funcionamento do mundo – e ainda paira um bocado até hoje. Antigamente, por olharmos ao nosso redor e encontrarmos apenas seres menos evoluídos intelectualmente (sic), foi muito fácil criar uma estrutura conceitual de criação do Universo baseada em nós mesmos. Nós, humanos primatas, somos ensimesmados. Daí a Terra ser o centro de tudo, o Sol girar em torno de nós e, claro, sermos criados à imagem e semelhança de um suposto criador. Daí, também, nos considerarmos a coroação da criação, o ápice existencial, a nata do leite e o recheio da última bolachinha. Soma-se a isso a nossa cultura patriarcal e, pronto, aí está: Deus, a personificação masculina do imponderável. Masculina porque em cultura patriarcalista é sempre o homem aquele que governa, o delegado que manda prender e manda soltar. É o Deus, no lugar de a Deusa; é Pai Nosso, Meu Senhor, O Criador, etc. Pelo que me consta, inicialmente era a Deusa-mãe, o que faz muito sentido, pois é a mulher quem gera um outro ser à sua imagem e semelhança, mas registra-se que foram os hebreus que converteram o sexo, e a Deusa virou Deus, e nunca mais se fez mulher novamente. Tipo Roberta Close, só que ao contrário. Não havendo espaço para dois sexos no Ser Absoluto, o gênero feminino surgiu no conceito de Mãe-Natureza – conceito esse que, analisando lucidamente, é o mesmo que Deus. Isso não muda muito as coisas. É tudo crença, afinal, e crença não se comprova, nem se refuta: se o indivíduo teimar que sua imaginação é real, não há argumentos convicentes que provem o contrário, “pois é uma questão de fé” – ele replicará. Ou invocará a metafísica. E assim se mantém o Pai Nosso que está no Céu até hoje. ATÉ HOJE!
Estamos ainda passando pelas transformações das descobertas do que realmente está lá fora, e isso está sendo bastante bom, pois já estamos bem mais prá frentex do que há alguns séculos. Contudo, alguns de nós ainda carregam velhos conceitos como a total inevitabilidade do destino que já está traçado, ou a ideia de um criador separado de nós que está lá em cima, ou ainda a necessidade da crença por si só em qualquer coisa. Ou seja, ainda temos uma carga grande de credo e de delirium misticum.
Contudo, nem todos os povos são ou foram crentes. Consta que, no segmento indiano da Proto-História, no seio da Civilização do Vale do Indo (harappiana), não havia religiões institucionalizadas. O povo da época, os drávidas, cultuava as forças da Natureza, mares, árvores, o luar e, principalmente, o sol. Isso é realmente espantoso se considerarmos que aqueles eram tempos profundamente religiosos noutras regiões do planeta, que construíram templos ou tumbas faraônicas e ostensivas motivadas por ideais místicos ou religiosos. Bem pelo contrário: para os drávidas, não havia um senhor de barbas brancas regendo o Cosmos, a sociedade era naturalista, não-espiritualista. Sorte de quem aprende e assimila esta cultura harappiana, e atribui um caráter completamente não-místico em sua percepção de mundo. Afinal, para que se importar com o mistério das cousas? Para mim, o único mistério é haver quem pense no mistério! (trecho de poesia de Fernando Pessoa). Que maneira bela de viver! Sem credo, catequese, doutrinação, fantasias, pecado ou temor ao sexo. Pelo que sei a respeito dos drávidas, alguns historiadores rotularam-los de ateístas, mas esse conceito é inexato, pois eles não negavam nada enquanto não havia nada para negar, já que só muitos séculos mais tarde é que o homem viria criar um Criador à sua imagem e semelhança. Portanto, o melhor termo para conceituar o posicionamento do povo drávida é agnosticismo, termo esse que está alheio às divinas comédias da crendice social. Assim sejamos todos.
Se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e luar
Então acredito nele a toda hora.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar.
(Fernando Pessoa, ilustrando muito bem o pensamento naturalista)