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A Cultura do Poder, do Saber e do Sentir

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Há metafísica bastante em não pensar em nada. Dezembro 22, 2009 | 06:08 pm

Um belo poema que carrego e me inspiro para viver 2010.
Este é do Mestre Fernando Pessoa, através de seu heterónimo Alberto Caeiro.
Feliz Ano Novo, amigos leitores!

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Alberto Caeiro

http://www.jornaldepoesia.jor.br/alberrr.html

A Santa Ceia atual Dezembro 19, 2009 | 06:00 pm
Vamos, irmão, comer uma porca sangrando para celebrar a vida e beber um vinho para celebrar consciência!

Vamos, irmãos, comer uma porca sangrando para celebrar a vida e beber álcool para brindar à consciência!

E, no revólver do organismo, alguns grandes problemas à ponto de bala, esperando a garfada fatal que puxará o gatilho rumo ao Sonrisal (ou ao hospital). Essa é a Santa Ceia atual.

No cenário coadjuvante, a alguns metros da concentração da bagunça, paira numa mesa, amparado por um suporte que tenta transmitir requinte, sobre um tecido que transborda o móvel, um livro escrito por homens e atribuído a um Ser Celestial, supostamente designado para doutrinar e direcionar a conduta de vida de seus leitores, e até nesse livro errante não há em lugar algum a indicação de que o ser humano foi projetado para comer carnes.

Pelo que me consta, em nenhuma passagem das traduções mais antigas e fiéis da Bíblia há indicações de que Jesus comeu peixe, tomou vinho, ou que o ser humano foi feito para comer carnes. Muito pelo contrário, o Filho apenas tomou tiyrosh (non-alcoholic grapejuice or sweet wine [1]) e, no Gênesis, consta que fomos projetados para durar 120 anos e que foram criadas as árvores e as ervas que dão semente para que nos sirvam de alimento.

“Quem mata um boi é como o que tira a vida a um homem;
quem sacrifica um cordeiro é como o que degola um cão.”
(Isaías, 66:3)

Parece tudo bem claro. Não que esse livro sirva como norte moral válido para aplicarmos no cotidiano, da mesma forma como descartamos também o Corão, ou o Torá, mas vale o registro para todos aqueles que precisam de um empurrãozinho religioso.

“Virá o dia em que a matança de um animal
será considerada crime tanto quanto o assassinato de um homem.”
(Leonardo da Vinci, mais de mil anos depois da Bíblia)

Christian, o leão Dezembro 19, 2009 | 02:30 pm

Mais um exemplo de sentimento animal. É um vídeo emocionante para curtir bem o Natal, insuflado de amor, sensorialidade e respeito a todos seres -- de duas ou de quatro patinhas.

Você não é o centro do Universo Novembro 20, 2009 | 08:08 am

Abaixo, um dos poucos vídeos que carrego em minha pasta de diretrizes conceituais e que explica o motivo pelo qual os cientistas são mais religiosos que os padres: eles estão mais em contato com a magnitude do mundo ao nosso redor, sem crença, sem temência, sem folclores.

Como sou muito querido, vou traduzir o vídeo:

- Vamos falar de TAMANHO
- O quão grandes são os objetos que flutuam em nosso Universo e o quão grandes eles podem ser?
- Aproveite a comparação a seguir, começando com um objeto bem grande, a nossa própria lua.

#Planetas

  • Lua da Terra
  • Mercúrio
  • Marte
  • Vênus
  • Terra (você está aqui)
  • Netuno
  • Saturno (sem os anéis)
  • Júpiter

#Estrelas

  • O Sol (nossa própria estrela)
  • Sirius A
  • Pollux (Laranja Gigante)
  • Arcturus (Vermelha Gigante)
  • Aldebaran (Vermelha Gigante)
  • Rigel (Azul Supergigante)
  • Pistol Star (Azul Hipergigante)
  • Antares A (Vermelha Supergigante)
  • Mu Cephei (Vermelha Supergigante)
  • VY Canis Majoris (Vermelha Hipergigante) [maior estrela conhecida]

- Tamanho da Terra (em relação à VY Canis Majoris)
- Esta estrela tem um diâmetro de aproximadamente 2.800.000.000km. Como você pode imaginar este tamanho?
- Pense em um avião de passageiros voando pela superfície desta estrela a 900km/hora.
- Levaria 1.100 anos(!) para dar uma volta completa nela.
- Ainda assim, ela é apenas um pequeno ponto entre diversas centenas de bilhões de estrelas formando nossa galáxia.
- E há centenas de bilhões de galáxias lá fora!
- Não, – você – não – é – o – centro – do – Universo!

Conforto emocional sem crença Novembro 6, 2009 | 08:08 am

Da série A crença conduz à ignorância

As consequências do ato crer são negativamente infindáveis. Aceitar que uma figura chamada Yeshua (Jesus) tenha existido vá lá, mas acreditar que tenha nascido de mãe virgem, fez milagres, ressuscitou e ascendeu aos céus… o que você acharia de uma cabeça que crê nisso? Não peço a julgar pessoas, devo advertir, mas peço, sim, que se compartilhe a percepção dessa situação. Somos tão racionais a respeito de todo o resto, tacharíamos de louco se alguém acreditasse em duendes ou gnomos, mas relevamos as alucinações das religiões institucionalizadas tradicionais.

De tempos em tempos, aprofundo-me um pouco mais na questão da crença. Ela parece assolar o planeta. Tanto é que a maioria das pessoas não consegue abandonar o ato de crer instantâneamente, e passamos por uma fase em que há a crença em um Senhor onipotente e onisciente, mas sem igreja. Seria isso o significado da frase ”tenho um lado espiritual independente de religiões“? Talvez, pois é uma frase que dá margem a algumas interpretações. Em partes, vejo essa expressão como uma ponte ao agnosticismo, funcionando como uma transição saudável e gradual para não causar rupturas muito grandes com nossos laços medievais – afinal, nossa criação geral bane conceitos como ateísmo e agnosticismo, e há um receio em declarar que somos ateus ou agnósticos aos quatro ventos. Mas voltemos à crença: a crença faz o impossível e improvável se tornar verdadeiro na cabeça do crente, que acredita apenas porque sua fantasia lhe é conveniente. Triste é a mente que precisa recorrer às ilusões para conquistar conforto emocional. Jamais moveria um dedo para tirar tal conforto de qualquer criatura desse mundo, mas vivo e trabalho para que tamanha felicidade seja conquistada por mim e por toda a Humanidade, sem necessitar do véu de misticismo e crendice que mascara a Natureza e esconde a nossa real existência. Larguemos a crença e sejamos felizes. Assim seja.

George Carlin em “Salve o planeta” Agosto 22, 2009 | 01:08 am
George Carlin

George Carlin

Foi através da rotina “Save the planet” que eu comecei a apreciar George Carlin. Comediante falecido em 2008, ele tem uma trajetória excepcional no humor. Gosto muito dele por ele ser, na verdade, um belo crítico social que utiliza a comédia como ferramenta. Essa linha profissional não é exclusividade do George, mas ele é excepcional no que faz.

Tudo o que eu pensava sobre o planeta coincidiu com o que Carlin mencionou no vídeo abaixo. Houve más interpretações sobre o que ele realmente quis dizer, mas, paciência! – é o preço que se paga por ou ser irônico demais ou deixar alguma lacuna na exposição de um argumento. Ele deixou lacunas na exposição de alguns argumentos, e isso fez com que pessoas mais limitadas entendessem que ele está se lixando para o planeta. Não é isso.

O planeta está muito bem! Sempre esteve, está e sempre estará. Quando as geleiras derretem, quando as indústrias de carne e frigoríficos poluem preciosos lençóis freáticos, quando são lançadas toneladas de dioxina na atmosfera e quando é feita muita sujeira, não é o planeta que é prejudicado: somos nós. Nós e as demais formas de vida senscientes terrestes, que sofrem muito pelos nossos atos e não tiveram nada a ver com isso.


Trecho do show de Carlin “Jammin’ in New York“, de 1992
http://www.youtube.com/watch?v=X_Di4Hh7rK0

Após ter assistido a todos os últimos 6 shows desse entertainer, vejo que muitas vezes ele aplica um tom ofensivo em suas falas, o que acaba por torná-lo um crítico censurado. Ah, se Carlin tivesse conhecido a Nossa Cultura, teria ele se tornado, quem sabe, mais contente e mais diplomático…

Encerro o post com um comentário de Arnaldo Jabor no Jornal da Globo em fevereiro de 2007, totalmente em concordância com o posicionamento de Carlin:


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