Alexandre Montagna

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A Cultura do Poder, do Saber e do Sentir

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Uma breve história da religião (em inglês) Agosto 9, 2010 | 10:58 am

E eu não vou traduzir.

Para onde vamos depois que morremos? Maio 1, 2010 | 08:08 pm

Sensato é considerar que morrer é ir a todo lugar. E, ao mesmo tempo, a lugar algum.

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Que tal este estilo retrô de crença pós-mortis?

Desconverse quando alguém começar a falar nas vidas após a morte, reencarnação, reencadernação, etc. Os que consideram vidas vindouras são crentes, porque acreditam. Os que preferem saber são agnósticos quanto a isso. Vida após a morte é fitfty-fifty (“cinquenta-cinquenta”), ou seja, pode haver como pode não haver. Comprovar por via racional, em tese, não há como. Não há indícios de que exista tal façanha, e os registros mediúnicos de pessoas mortas que paranormais alegam ter feito e que vez ou outra escutamos falar podem perfeitamente serem compreendidos à luz da esperta linguagem genérica, que é a arte de falar muito sem dizer nada, parecendo que se disse tudo.

Por outro lado…

“Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay!”
Miguel de Cervantes

“Hay, sí, pero no son brujas.”
Alexandre Montagna

Quando o pensador não-religioso e não-crente pensa, ele prefere levantar hipóteses sem apegar-se a elas freneticamente. Levantemos uma questão: quando morremos, para onde vão os nossos registros emocionais e mentais, como as nossas memórias? Para um materialista-seco tudo se acaba e ponto final. Está bem, vá lá. Pode ser isso mesmo. Entretanto, levantemos uma hipótese (hipóteses podem ser levantadas, não?): e se, ao morrermos, os traços de nossa personalidade ainda vagassem pela atmosfera? Ora, se você acha muito estranho o que estou falando, vale lembrar que neste exato momento há diversas ondas hertzianas viajando ao seu redor. São ondas de rádio-frequência que estão há muito tempo no ar, foram disparadas e seguem seu tráfego. (Um pouco de cultura geral profunda: cientistas declaram que boa parte da interferência nos sinais de televisão são ondas praticamente atemporais do Universo, radiação gerada desde o Big-Bang e que ainda estão por aí). Bem, e se nossos pensamentos fossem radioativos? Gerados e disparados no ar? E se pudéssemos desenvolver a capacidade de receptar os pensamentos em rádio-frequência que estão no ar? Bem isso seria a tão famosa telepatia. No mínimo, interessante. Mas, hei! E se o emissor dos pensamentos já estivesse morto? Aí então seria algo como a mediunidade, pois estaríamos escutando o que um morto disse*. Isso é, no mínimo, muito interessante!

* não diz mais, pois está morto – portanto, descartemos a possibilidade de conversa em tempo real com defuntos, coisas do tipo: “querida, eu morri mas estou bem, cuide das crianças” e etc.

Conclusão do cético-ateu-agnóstico-racional Montagna: duvide de tudo, mas não descarte nada. O mundo é louco o bastante para tudo ser possível. Aí alguém diz: – “Ué, Alexandre, mas se tudo é possível, então porque não acreditas nesta fantasia ou naquele delírio?”. Ora, é verdade que admito que tudo pode ser possível; ocorre que muita coisa é bastante improvável. Além do mais, eu não gosto de acreditar: prefiro saber! Se eu não souber, não preencherei minhas lacunas mentais com crenças. Isso, jamais! Aprofundando um pouco (e agora vem a parte mais metafísica do texto), eu defendo que não adianta dizer que isso ou aquilo é impossível porque, em pontos profundos, as nossas próprias vidas já são impossíveis. Não há motivos aparentes para estarmos aqui. Você já tentou regressar na história da humanidade, planeta, sistema solar e Cosmos? É uma loucura das grandes! Admito que, numa análise imparcial, nossa existência é bastante improvável. Entretanto, cá estamos, e há todo um Cosmos, micro e macro, a desvendar.

Vamos desvendá-lo!

Nota de rodapé: este post está na categoria Sámkhya: o Saber. Sámkhya é uma filosofia teórica indiana de linha naturalista, ou seja, atribui causas naturais a todos os efeitos. Dess’arte, não há crença, misticismo, doutrinação, delírios. Trabalha-se o mapeamento e a enumeração do Cosmos através do verbo saber, e não do crer. É uma filosofia milenar que desnuda o Universo com muita propriedade: estudando o erudito Niríshwarasámkhya obtém-se grande percepção da realidade. Não é à toa que as escrituras indianas declaram “não há conhecimento como o Sámkhya”.

O Deus de Einstein e dos cientistas profundamente religiosos Abril 21, 2010 | 08:08 am
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Teísta ou ateísta? Teísta, perante um outro conceito de Theos

Certa vez, alguém disse: “os cientistas são os únicos profundamente religiosos”, e isso causou frisson devido ao maravilhoso argumento que então os religiosos passaram a possuir para unir ciência e religião. Mas será que é este o verdadeiro sentido da frase? O mais citado cientista que declaram ser religioso é Albert Einstein, tanto pelas margens que ele deu para essa interpretação como também devido à sua fama. Há outros que estão na lista, provável que injustamente, tais como Isaac Newton, Gauss, Kelvin e Jung – mas vou me concentrar no Albert, já que estou com seu livro Como vejo o mundo em minhas mãos. Vamos ver o que ele fala.

“[...] Sendo assim, que sentimentos e condicionamentos levaram os homens a pensamentos religiosos e os incitaram a crer, no sentido mais forte da palavra? Descubro logo que as raízes da idéia e da experiência religiosa se revelam múltiplas. No primitivo, por exemplo, o temor suscita representações religiosas para atenuar a angústia da fome, o medo das feras, das doenças e da morte. Neste momento da história da vida, a compreensão das relações causais mostra-se limitada e o espírito humano tem de inventar seres mais ou menos à sua imagem. Transfere para a vontade e o poder deles as experiências dolorosas e trágicas de seu destino. Acredita mesmo poder obter sentimentos propícios desses seres pela realização de ritos ou de sacrifícios. Porque a memória das gerações passadas lhe faz crer no poder propiciatório do rito para alcançar as boas graças de seres que ele próprio criou.” (Trecho retirado do livro Como vejo o mundo (original Mein Weltbild), de Albert Einstein, página 19, editora Círculo do livro)

Nas páginas que se seguem, Einstein rejeita o conceito de um Deus antropomórfico, o que, convenhamos, deveria não ser surpresa para ninguém e deveria, também, ser o mínimo a se esperar de uma pessoa sensata.  Mais adiante, o autor cita Schopenhauer, Demócrito, Francisco de Assis e Spinoza. Quem ler com atenção, entenderá porque ele declara que os mais próximos da verdadeira religião são, realmente, os cientistas. Esqueça a religião da crença, Einstein está falando da religião cósmica. Isso tudo foi um belo jogo de cintura do cientista, que menciona religião e Deus e faz média com todo mundo, e só quem encara suas leituras entenderá que, considerando o Deus da religião, que recompensa e castiga, Einstein era categoricamente ateu; por outro lado, ele alegava crer sim em Deus, referindo-se ao Deus de Spinoza, de Schopenhauer, a Força Cósmica, a Emanação de Energia Universal, ou quem sabe a Massa Energética Indiferenciada (Mahat, em sânscrito). E foi isso o que eu quis dizer com jogo de cintura, afinal, por que Einstein haveria de chamar isso de Deus, palavra esta que está tão atrelada a conceitos antropomórficos, se não fosse para evitar causar um grande choque em seus admiradores e leitores teístas? Volto a convocar o nosso amigo Fernando Pessoa a participar deste post através de um de seus poemas naturalistas:

Se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e luar
Então acredito nele a toda hora.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar.

(Fernando Pessoa, ilustrando muito bem o pensamento naturalista)

Mitologia e verdade se misturam em mentes obtusas.

Mitologia e verdade se misturam em mentes obtusas.

“[...] Somente indivíduos particularmente ricos, comunidades particularmente sublimes se esforçam por ultrapassar esta experiência religiosa. Todos, no entanto, podem atingir a religião em um último grau, raramente acessível em sua pureza total. Dou a isto o nome de religiosidade cósmica e não posso falar dela com facilidade já que se trata de uma noção muito nova, à qual não corresponde conceito algum de um Deus antropomórfico.” (Trecho retirado do livro Como vejo o mundo (original Mein Weltbild), de Albert Einstein, página 20, editora Círculo do livro)

O Inferno dos ateus Março 23, 2010 | 08:08 am

Um ateu morre e vai para o céu. Chegando lá, é recepcionado por São Pedro:

- Hummm… (lendo o livro da vida pregressa do ateu)… infelizmente meu filho, você não pode adentrar no Reino Celestial. Você, desde jovem, declarou-se ateu. Até mesmo no leito de morte, você ficou firme no seu ateísmo. Lugar de ateu é no Inferno.

Resignado, o ateu desce às profundezas abissais procurando a entrada do Inferno. Lá chegando, tem um choque: o ambiente se assemelha àqueles grandes cassinos de Las Vegas. Logo na entrada, lindas mulheres recepcionam o ateu. Extremamente surpreso, ele adentra no Inferno e é recebido por um homem elegantemente vestido com um terno branco e uma flor no bolso do paletó:

- Seja Bem-Vindo, meu grande amigo! – diz efusivamente – Eu sou Satanás, seu anfitrião por toda a eternidade e qualquer coisa que você queira é só pedir diretamente para mim ou para aquelas lindas mulheres.

(abaixando a voz) – A ruiva de vestido preto vai te levar à loucura!

A imagem do inferno era fabulosa: uma vasta planície com uma linda relva baixa e flores coloridas. Ao fundo, uma pequena sequência de montanhas.

Percebia-se um pequeno rio à esquerda, onde o ateu reconheceu Nietzsche e Voltaire, com varas de pescar em uma mão – sem anzol, apenas para alimentar os peixes – e um copo de suco na outra. Riam com intensa alegria! À direita, num restaurante com uma enorme varanda, o ateu discerniu somente numa mesa Thomas Paine, Robert Ingersoll e Thomas Jefferson, este último acenando e apontando para um livro em sua mão. Era o último livro de Richard Dawkins.

Confuso, desnorteado, o ateu não consegue entender o que está acontecendo. Só ouve o Satanás ao seu lado, falando como se fossem dois grandes amigos tomando refresco num barzinho. E ele não parava de falar:

- Meu amigo, aqui você poderá fazer tudo o que você sempre quis. Nada é proibido, desde que você obtenha prazer e não prejudique ninguém. – E acena para um homem que passava – Oi Giordano!

O ateu curioso pergunta:
- Aquele era Giordano Bruno?
- Hã? Ahh… sim! Desculpe-me por não apresentá-lo, mas não se preocupe, pois irá conhecê-lo nas noites de quinta-feira. Todas as quintas jogamos carta, após o jogo de futebol. Os únicos que não jogam são o Karl Marx e o Albert.

- Albert… Einstein?! – E nisso, de repente, a conversa é interrompida por descargas de relâmpagos e trovões que deixam o céu escuro com nuvens negras e ventos fortes e que parecem anunciar o dia do Juízo Final. O ateu vê que a planície, outrora linda, virou uma fossa abissal que expelia de suas entranhas, labaredas sulfurosas, como línguas demoníacas. No meio do céu tempestuoso, um homem aparece, gritando loucamente e ardendo em chamas, caindo diretamente na fossa aberta no chão. Tão logo o homem é engolido pelas chamas, tudo volta ao normal que era antes. A planície, Nietzsche e Voltaire no rio e Satanás não parando de falar, como se nada tivesse acontecido.

Perplexo pelo o que viu e não se contendo em curiosidade perante a tranquilidade de Satanás, o ateu pergunta:
- Que diabos foi isto?

Satanás responde:
- Era um evangélico. Eles preferem o Inferno desta maneira.

Adaptação do original em Gtokai.

Há metafísica bastante em não pensar em nada. Dezembro 22, 2009 | 06:08 pm

Um belo poema que carrego e me inspiro para viver 2010.
Este é do Mestre Fernando Pessoa, através de seu heterónimo Alberto Caeiro.
Feliz Ano Novo, amigos leitores!

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Alberto Caeiro

http://www.jornaldepoesia.jor.br/alberrr.html

A Santa Ceia atual Dezembro 19, 2009 | 06:00 pm
Vamos, irmão, comer uma porca sangrando para celebrar a vida e beber um vinho para celebrar consciência!

Vamos, irmãos, comer uma porca sangrando para celebrar a vida e beber álcool para brindar à consciência!

E, no revólver do organismo, alguns grandes problemas à ponto de bala, esperando a garfada fatal que puxará o gatilho rumo ao Sonrisal (ou ao hospital). Essa é a Santa Ceia atual.

No cenário coadjuvante, a alguns metros da concentração da bagunça, paira numa mesa, amparado por um suporte que tenta transmitir requinte, sobre um tecido que transborda o móvel, um livro escrito por homens e atribuído a um Ser Celestial, supostamente designado para doutrinar e direcionar a conduta de vida de seus leitores, e até nesse livro errante não há em lugar algum a indicação de que o ser humano foi projetado para comer carnes.

Pelo que me consta, em nenhuma passagem das traduções mais antigas e fiéis da Bíblia há indicações de que Jesus comeu peixe, tomou vinho, ou que o ser humano foi feito para comer carnes. Muito pelo contrário, o Filho apenas tomou tiyrosh (non-alcoholic grapejuice or sweet wine [1]) e, no Gênesis, consta que fomos projetados para durar 120 anos e que foram criadas as árvores e as ervas que dão semente para que nos sirvam de alimento.

“Quem mata um boi é como o que tira a vida a um homem;
quem sacrifica um cordeiro é como o que degola um cão.”
(Isaías, 66:3)

Parece tudo bem claro. Não que esse livro sirva como norte moral válido para aplicarmos no cotidiano, da mesma forma como descartamos também o Corão, ou o Torá, mas vale o registro para todos aqueles que precisam de um empurrãozinho religioso.

“Virá o dia em que a matança de um animal
será considerada crime tanto quanto o assassinato de um homem.”
(Leonardo da Vinci, mais de mil anos depois da Bíblia)


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