Sensato é considerar que morrer é ir a todo lugar. E, ao mesmo tempo, a lugar algum.

Que tal este estilo retrô de crença pós-mortis?
Desconverse quando alguém começar a falar nas vidas após a morte, reencarnação, reencadernação, etc. Os que consideram vidas vindouras são crentes, porque acreditam. Os que preferem saber são agnósticos quanto a isso. Vida após a morte é fitfty-fifty (“cinquenta-cinquenta”), ou seja, pode haver como pode não haver. Comprovar por via racional, em tese, não há como. Não há indícios de que exista tal façanha, e os registros mediúnicos de pessoas mortas que paranormais alegam ter feito e que vez ou outra escutamos falar podem perfeitamente serem compreendidos à luz da esperta linguagem genérica, que é a arte de falar muito sem dizer nada, parecendo que se disse tudo.
Por outro lado…
“Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay!”
Miguel de Cervantes
“Hay, sí, pero no son brujas.”
Alexandre Montagna
Quando o pensador não-religioso e não-crente pensa, ele prefere levantar hipóteses sem apegar-se a elas freneticamente. Levantemos uma questão: quando morremos, para onde vão os nossos registros emocionais e mentais, como as nossas memórias? Para um materialista-seco tudo se acaba e ponto final. Está bem, vá lá. Pode ser isso mesmo. Entretanto, levantemos uma hipótese (hipóteses podem ser levantadas, não?): e se, ao morrermos, os traços de nossa personalidade ainda vagassem pela atmosfera? Ora, se você acha muito estranho o que estou falando, vale lembrar que neste exato momento há diversas ondas hertzianas viajando ao seu redor. São ondas de rádio-frequência que estão há muito tempo no ar, foram disparadas e seguem seu tráfego. (Um pouco de cultura geral profunda: cientistas declaram que boa parte da interferência nos sinais de televisão são ondas praticamente atemporais do Universo, radiação gerada desde o Big-Bang e que ainda estão por aí). Bem, e se nossos pensamentos fossem radioativos? Gerados e disparados no ar? E se pudéssemos desenvolver a capacidade de receptar os pensamentos em rádio-frequência que estão no ar? Bem isso seria a tão famosa telepatia. No mínimo, interessante. Mas, hei! E se o emissor dos pensamentos já estivesse morto? Aí então seria algo como a mediunidade, pois estaríamos escutando o que um morto disse*. Isso é, no mínimo, muito interessante!
* não diz mais, pois está morto – portanto, descartemos a possibilidade de conversa em tempo real com defuntos, coisas do tipo: “querida, eu morri mas estou bem, cuide das crianças” e etc.
Conclusão do cético-agnóstico-racional Montagna: duvide de tudo, mas não descarte nada. O mundo é louco o bastante para tudo ser possível. Aí alguém diz: – “Ué, Alexandre, mas se tudo é possível, então porque não acreditas nesta fantasia ou naquele delírio?”. Ora, é verdade que admito que tudo pode ser possível; ocorre que muita coisa é bastante improvável. Além do mais, eu não gosto de acreditar: prefiro saber! Se eu não souber, não preencherei minhas lacunas mentais com crenças. Isso, jamais! Aprofundando um pouco (e agora vem a parte mais metafísica do texto), eu defendo que não adianta dizer que isso ou aquilo é impossível porque, em pontos profundos, as nossas próprias vidas já são impossíveis. Não há motivos aparentes para estarmos aqui. Você já tentou regressar na história da humanidade, planeta, sistema solar e Cosmos? É uma loucura das grandes! Admito que, numa análise imparcial, nossa existência é bastante improvável. Entretanto, cá estamos, e há todo um Cosmos, micro e macro, a desvendar.
Vamos desvendá-lo!
Nota de rodapé: este post está na categoria Sámkhya: o Saber. Sámkhya é uma filosofia indiana de linha naturalista, que atribui causas naturais a todos os efeitos. Dess’arte, não há crença, misticismo, doutrinação, delírios. Trabalha-se o mapeamento e a enumeração do Cosmos através do verbo saber, e não do crer. É uma filosofia milenar que desnuda o Universo com muita propriedade: estudando o erudito Niríshwarasámkhya obtém-se grande percepção da realidade. Não é à toa que as escrituras indianas declaram “não há conhecimento como o Sámkhya” (Mahabhárata).