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Para onde vamos depois que morremos?

Por Alexandre Montagna, Sábado, 1 Maio 2010 | 20:08

Sensato é considerar que morrer é ir a todo lugar. E, ao mesmo tempo, a lugar algum.

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Que tal este estilo retrô de crença pós-mortis?

Desconverse quando alguém começar a falar nas vidas após a morte, reencarnação, reencadernação, etc. Os que consideram vidas vindouras são crentes, porque acreditam. Os que preferem saber são agnósticos quanto a isso. Vida após a morte é fitfty-fifty (“cinquenta-cinquenta”), ou seja, pode haver como pode não haver. Comprovar por via racional, em tese, não há como. Não há indícios de que exista tal façanha, e os registros mediúnicos de pessoas mortas que paranormais alegam ter feito e que vez ou outra escutamos falar podem perfeitamente serem compreendidos à luz da esperta linguagem genérica, que é a arte de falar muito sem dizer nada, parecendo que se disse tudo.

Por outro lado…

“Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay!”
Miguel de Cervantes

“Hay, sí, pero no son brujas.”
Alexandre Montagna

Quando o pensador não-religioso e não-crente pensa, ele prefere levantar hipóteses sem apegar-se a elas freneticamente. Levantemos uma questão: quando morremos, para onde vão os nossos registros emocionais e mentais, como as nossas memórias? Para um materialista-seco tudo se acaba e ponto final. Está bem, vá lá. Pode ser isso mesmo. Entretanto, levantemos uma hipótese (hipóteses podem ser levantadas, não?): e se, ao morrermos, os traços de nossa personalidade ainda vagassem pela atmosfera? Ora, se você acha muito estranho o que estou falando, vale lembrar que neste exato momento há diversas ondas hertzianas viajando ao seu redor. São ondas de rádio-frequência que estão há muito tempo no ar, foram disparadas e seguem seu tráfego. (Um pouco de cultura geral profunda: cientistas declaram que boa parte da interferência nos sinais de televisão são ondas praticamente atemporais do Universo, radiação gerada desde o Big-Bang e que ainda estão por aí). Bem, e se nossos pensamentos fossem radioativos? Gerados e disparados no ar? E se pudéssemos desenvolver a capacidade de receptar os pensamentos em rádio-frequência que estão no ar? Bem isso seria a tão famosa telepatia. No mínimo, interessante. Mas, hei! E se o emissor dos pensamentos já estivesse morto? Aí então seria algo como a mediunidade, pois estaríamos escutando o que um morto disse*. Isso é, no mínimo, muito interessante!

* não diz mais, pois está morto – portanto, descartemos a possibilidade de conversa em tempo real com defuntos, coisas do tipo: “querida, eu morri mas estou bem, cuide das crianças” e etc.

Conclusão do cético-ateu-agnóstico-racional Montagna: duvide de tudo, mas não descarte nada. O mundo é louco o bastante para tudo ser possível. Aí alguém diz: – “Ué, Alexandre, mas se tudo é possível, então porque não acreditas nesta fantasia ou naquele delírio?”. Ora, é verdade que admito que tudo pode ser possível; ocorre que muita coisa é bastante improvável. Além do mais, eu não gosto de acreditar: prefiro saber! Se eu não souber, não preencherei minhas lacunas mentais com crenças. Isso, jamais! Aprofundando um pouco (e agora vem a parte mais metafísica do texto), eu defendo que não adianta dizer que isso ou aquilo é impossível porque, em pontos profundos, as nossas próprias vidas já são impossíveis. Não há motivos aparentes para estarmos aqui. Você já tentou regressar na história da humanidade, planeta, sistema solar e Cosmos? É uma loucura das grandes! Admito que, numa análise imparcial, nossa existência é bastante improvável. Entretanto, cá estamos, e há todo um Cosmos, micro e macro, a desvendar.

Vamos desvendá-lo!

Nota de rodapé: este post está na categoria Sámkhya: o Saber. Sámkhya é uma filosofia teórica indiana de linha naturalista, ou seja, atribui causas naturais a todos os efeitos. Dess’arte, não há crença, misticismo, doutrinação, delírios. Trabalha-se o mapeamento e a enumeração do Cosmos através do verbo saber, e não do crer. É uma filosofia milenar que desnuda o Universo com muita propriedade: estudando o erudito Niríshwarasámkhya obtém-se grande percepção da realidade. Não é à toa que as escrituras indianas declaram “não há conhecimento como o Sámkhya”.

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10 respostas para “Para onde vamos depois que morremos?”

  1. Paula Moreira escreveu:

    “querida, eu morri mas estou bem, cuide das crianças” ahahaha adorei.

    Acho que não precisamos achar um motivo para estarmos aqui, simplesmente saber que somos a entropia personificada (ha! literalmente) na busca do Universo pelo equilíbrio…mais um bocado de massa estelar absurdamente complexo e, cá entre nós, um tanto quanto prepotente! Ha.

    Beijitos

    [Responder]

    Alexandre Montagna Reply:

    Ha, amei tua síntese! Me deste uma vontade imensa de ensaiar sobre a entropia.
    Beijinhos entrópicos (e telepáticos)!

    [Responder]

  2. Mayara escreveu:

    Olha, eu tenho um brilhante professor de cálculo chamado Zum. Ele é muito doido! E as vezes quando aparece uma equação muito grande e que parece muito difícil depois de resolver no quadro ele sempre solta: “It´ssssss incredible, but is true!”. E a vida, o Universo e toda essa grandiosidade que também nos assusta de início é isso: “is incredible, but is true” e quando começamos a destrinchar vai dando certo e nem é tão aterrorizante quanto parecia. Mas outras nao sabemos nem por onde começar a resolver como a morte, é um enigma. Mas é um mistério só porque é o fim do que conhecemos como vida, nada de sobrenatural nisso. Para mim – e para Sarte também – a morte é tão ocasional quanto a vida. É o fechamento de um ciclo. “It`s incredible but is true”!!!

    [Responder]

    Alexandre Montagna Reply:

    Obrigado por contribuir neste louco post, May. You are incredible, and fortunetely you’re true!.

    [Responder]

  3. Rômulo Justa escreveu:

    O fato é que a compravação factual de um afterlife é impossível e ponto. Não devemos nos preocupar com isso, mas com o impacto concreto que esta crença tem em nossas vidas, nossa subjetividades.

    Um homem bomba explode por lhe acenarem um paraíso com virgens disponíveis, nenhum aiatolá pode lhe trazer uma foto desse paraíso, mas como ele acredita, isso transforma sua subjetividade e o capacita a matar a esmo.

    O fato é que todos devemos encarar a morte, que é o incognoscível por excelência, e um dos corolários desse confronto sincero é algum tipo de interpretação que reduza essa incompreensão tácita, não tanto para nos garantir que viveremos post-mortem, mas para nos permitir colocar a morte e o morrer no seio da vida, abrangê-la numa totalidade.

    Abraços grande amigo!

    [Responder]

    Alexandre Montagna Reply:

    Ótimo comentário, Rômulo. Um brinde ao Yôga, à Imortalidade e à Liberdade! Ah, e às 108 virgens que todos nós, os yôgins, temos direito no post-mortem.

    [Responder]

  4. Isabelle WB escreveu:

    Xandinho, esses dias assisti um documentario e lembrei de ti. E’ com Bill Maher e se chama “Religulous”.
    Bom, fica ai a dica!
    Beijos.

    [Responder]

    Alexandre Montagna Reply:

    Eu não só o conheço, como também participei de uma tradução deste documentário para o idioma português. Venho acompanhando o trabalho de Bill Maher há algum tempo, e ele está ficando muito bom nestes assuntos! Obrigado pela indicação. Faça isto sempre, sim? Beijinhos, Beloca!!

    [Responder]

  5. claudio escreveu:

    Caríssimo amigo Alexandre

    Em primeiro lugar, meus parabéns pela sua lógica argumentativa

    Segue a ficha do livro do Dr. Nahor, que é dr. em geologia pela USP, livro que está publicado em primorosa edição de luxo.:

    Nahor N. Souza Jr.
    “Uma Breve História da Terra”. 207 pag.
    Sociedade Criacionista Brasileira
    Brasília DF, 2004. 2a. Edição.

    Percebo que você é bem esclarecido, porém está equivocado quando se refere à fé como contrária à ciencia. Na verdade, elas se deram muito bem até certo tempo. O grande problema é que os hoje cientistas se dividem em criacionistas e evolucionistas, porém não há demérito para os que tem fé: é apenas questão de cosmovisão.

    Muitos cientistas antigos eram criacionistas, como por exemplo Isac Newton que escreveu até mesmo um comentário sobre profecias biblicas. O livro publicado pela CPB, do autor Dr. Rodrigo Pereira (”Eles também criam em Deus”) expoe grandes homens da ciencia como crentes em Deus, embora seus conceitos cientificos estejam em vigor até hoje. Ademais, visite o site da Sociedade Criacionista Brasileira e veja quem são os homens ali: até mesmo foram premiados por seus escritos na area da ciencia.

    Criacionismo e fé não conflita com ciencia. Na verdade há tanta fé na ciencia quanto no cristianismo. Muitas declarações e premissas da ciência são com base na fé. As teorias acerca da origem da vida, por exemplo, são apenas hipóteses, que hoje são declaradas como verdades definitivas, quase como dogmas da dita “Ciencia”. Penso que há tantas visões da ciência quanto da fé.

    Seria bom que alguem como voce lesse mais obras acerca do outro ponto de vista. Assista por exemplo, A Verdadeira Idade da Terra, um exelente documentário cientifico que nunca foi contestado pela ciencia agnostica. Leia por exemplo, , de Naor Rodrigues, Uma Breve Historia da Terra, pela Sociedade Criacionista Brasileira, e perceba como o fundamento cientifico se mescla ao discurso criacionista.

    Acerca de Jesus, há mais fundamento histórico dele hoje em obras escritas, sobre seu tempo, seu contexto de vida, sua pregação etc que qualquer imperador grego ou romano, ou mesmo um personagem de nosso tempo. Foi mais que provado o fundamento historico dos evangelhos.

    Já se entende que a figura de jesus como historica esta provada. E só se entende a força de sua pessoa devido algo mais nele que levasse a essa celebração, além de uma vida no nível comum, ainda mais devido as circunstancias de sua morte, que foi vergonhosa; mas se deve, acima de tudo algo grandioso que o elevasse, algo como sua ressurreição. Um homem apenas, pouco impacto teria se fosse evidente apenas sua morte vexatoria como criminoso.

    O grande problema é que a gente se deixa levar apenas por uma visão. Faria bem ler também a grande obra de Ian G. Barbour, Fisico Nuclear e Teologo, prêmio Templeton em 1999: “Quando a Ciencia Encontra a Religião: inimigas, estranhas ou parceiras?”.

    Leia mais sobre estes temas dos dois lados, sem preconceito e verá que sua visao vai se abrir mais.

    Fica meu apreço. Tenho aprendido boas coisas com você.

    Abraço.

    Claudio S. Sampaio
    Graduado em teologia
    Pós-graduado em Ciencias da Religião.

    [Responder]

    Alexandre Montagna Reply:

    Estimado Pastor Claudio,

    Primeiramente quero parabenizá-lo pela sua respeitosa abordagem nas caixas de comentários de meu blog. É desta forma que pessoas cordiais devem sempre se portar perante opiniões de outros, sejam elas favoráveis ou divergentes.

    Gostaria de esclarecer meu posicionamento acerca da ciência: não sou um defensor incondicional dela. Há, sim, muitos dogmas científicos, e é por isso que não a utilizo para ser a minha bandeira ideológica. Aliás, quando duas pessoas de crescimento intelectual diferentes querem se referir à Verdade (aquela com V maiúsculo), elas devem evitar a utilização de rótulos, a fim de evitar mascarar o conhecimento.

    Por isso, permita-me reforçar que procuro não defender a ciência, mas sim o verbo saber. Para uma pessoa como eu, amigo Claudio, parece incoerente que se utilize a Bíblia como norte moral em detrimento do Corão. Ou algum destes em detrimento do Torá, ou Bhagavad Gítá, ou qualquer outro livro sagrado, cujos personagens também fazem milagres, ressuscitam, andam sobre águas, nascem de virgens, etc.

    Percebamos juntos, Claudio, que ao mesmo tempo que um indivíduo cristão considera a vida de Jesus como histórica e verdadeira, outro indivíduo considera a vida de Krishna como verdadeira. Outros, consideram Thor, Zeus, Dionísio, Mitra, Attis etc como deuses que realmente existem. Porque um cristão não faz oferendas ao deus Krishna, que também ressuscitou e é uma divindade extremamente sagrada para um bilhão de hindus? “Todo religioso é ateu.. perante a religião dos outros” – não é verdade? A diferença entre um religioso e um ateu é que o ateu acredita em um deus a menos do que o religioso. Isso, no mínimo, nos faz pensar!

    Eu seria arrogante se me considerasse pronto e com todo o conhecimento dentro de mim. Não descarto nada que você diz ou porventura ainda diga; só espero que você não crie esperanças, Claudio, de que eu comece a adotar o verbo acreditar para arquitetar a compreensão do Cosmos dentro de mim. Para que acreditar, se posso saber? Acreditar é tomar como verdade algo que não se possa comprovar. Se pudesse ser comprovado, eu não creria: saberia! Creio, porque não vi; se eu tivesse visto, aí eu saberia. Mas, se eu não vi, por que creria? Creria por conforto emocional apenas, mas prefiro conforto emocional sem crença. Ora, ou sei ou não sei. O que eu não souber, eu deduzo, aufiro, considero, mas não creio. Vejo pela minha experiência pela terra que a crença impede a nossa consciência de saber, nos desune e prende o intelecto.

    Finalmente, sobre evolução e criacionismo, permita-me reiterar que até a própria Igreja Católica já não considera mais o evolucionismo como uma mera hipótese. É evidente que há um desenvolvimento uno que se ramificou durante milhões de anos, dando origem à biodiversidade que encontramos hoje ao nosso redor e encontramos também ao olhar no espelho. Mencionar o duelo Evolucionismo versus Criacionismo é inadequado perante a nossa sapiência. Entretanto, estou ciente da existência do design inteligente, que muitos defendem para amalgamar as evidências evolucionistas com a crença no Criacionismo. Não vejo um motivo de unir uma coisa à outra senão à necessidade de manter acesa a chama da crença numa época em que ela enquanto dogma institucional é contestada.

    Mais do que considerar suas sugestões de leitura, Claudio, prefiro considerar o que você expuser com suas palavras, seu coração e seu intelecto. Nutro boas expectativas de que você absorveu bem o conhecimento exposto nos livros mencionados e saberá expressar contrapontos com argumentação adequada. Mas, já aviso: numa boa conversa lúcida, não vale mencionar nada que exija crença.

    Talvez eu demore um pouco para responder comentários longos, mas uma hora/dia responderei seguramente.

    Um abraço agradecido pela sua participação e simpatia.

    Alexandre Montagna

    [Responder]

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