A mente atrás do rosto (personam) e os jogos de poder

Verbos da simplicidade inocente de um sentimento.

Há quem trate tudo isto como um jogo. De fato, um jogo é. A vida, esta que começa quando você está no ventre de sua mãe, é um jogo. Ela lhe coloca em situações nas quais você precisa se relacionar com outros indivíduos. Para você, a sua vida é o mais importante. Para os outros, o mais importante é a vida deles. Para você, a vida acontece através das janelas dos seus olhos. Para os outros, a vida é vista pela ótica do sistema visual deles. O perfume da vida que você sente, só você sente. Os outros sentem outros cheiros.

Apesar de o Cosmos ser uma grande teia em que tudo se influencia mutuamente e em que todos nós somos colegas de existência, a noção de mundo que todos têm é que o Universo se divide entre “eu” e “os outros”. E aí o jogo começa (“let the game begin”)! A corrida pela sobrevivência, as estratégias de sucesso, os jogos de poder. A transa com a fêmea-alpha, o degustar da lebre recém abatida, a melhor caverna da floresta, a melhor sombra da savana, o maior respeito angariado. Viva o macho-alpha. Longa vida ao Fuhrer.

O problema se agrava quando o cérebro é capaz de armar complexas estratégias para o poder. Esta evolução dos estratagemas de sobrevivência conduz à falsidade, às palavras para despistar, às cortinas de fumaça e veste lobos com peles de cordeiros. Indivíduos que abraçam a vítima como se fossem um irmão. Uma irmandade de Caim e Abel. Neste cenário, obter triunfo é uma arte digna de jogador que trata os demais como adversários, e não como amigos. Aliás, aos olhos de um estrategista, ninguém é, na verdade, amigo. Estes são apenas outros jogadores a quem concede-se proximidade e com quem compartilha-se um pouco do espaço vital enquanto for conveniente. Ilusórias parcerias e amizades podem se transformar em pó num piscar de olhos, antes que você consiga soletrar a frase “esta-relação-não-me-ajuda-a-obter-poder”.

“Nada é aquilo que parece ser.” (DeRose)

Tratar os amigos como adversários no jogo da vida definitivamente não é o caminho mais empático, amoroso e fraternal. Este caminho evoluído é, via de regra, uma meta proposta por diversas correntes e ordens que visam uma Fraternidade Universal, uma Irmandade sem limites e uma União e Integração entre todas as criaturas vivas. Entretanto, poucos são os seguidores, os iniciados ou os cidadãos que realmente estão engajados para que esta proposta aconteça de fato. E sem envolver dogmas, claro.

A utópica união dos seres passa pelo exercício da transparência, lealdade, sinceridade e alma pura. Este romantismo ideal tem terreno infértil no planeta Terra mesmo entre pessoas de quem espera-se um pouco mais de boa vontade. Na verdade, eu ainda não sei dizer se o problema é na fertilidade do terreno (pessoas) ou na habilidade do plantio (método para implementar a união). A impressão é que mesmo os considerados e aceitos como homens-de-bem vez ou outra são até piores do que os maus declarados. Às vezes fico imaginando que Maquiavel foi um rapaz com muita boa vontade, mas sentiu que em terra de mãos duras, mão macia se machuca, e assim produziu seus textos sobre como conquistar poder dentre tanta competição e hostilidade, baseando-se em experiências sofridas e observadas.

A chave para o sucesso na vida afetiva e de verdadeiras amizades é perceber o real valor das pessoas. A intenção por trás da ação. A mente atrás do rosto. Jamais deposite seu coração nas mãos de um jogador. Espere até encontrar um amigo.

7 Responses to “A mente atrás do rosto (personam) e os jogos de poder

  • Pois é Montagna. Você é um cara legal mesmo. Escrevo muito sobre políticas entre as pessoas. Isso é definitivamente uma forma rudimentar de expressar poder e conquistas.

    Quem sabe um dia a competição se torna cooperação? A inveja, admiração?
    Gostaria que fóssemos menos animais e mais yôgins…

    Eu espero que consigamos moldar um ambiente desta forma.
    Abraço fraterno
    Meirelles

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    Alexandre Montagna Reply:

    Obrigado pelas palavras, Meirelles! Gostei muito de te receber aqui. E parabéns pelo teu site, que está bem estiloso e recheado. Outro abraço fraterno, na esperança de que consigamos moldar um ambiente com cooperação e admiração.

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  • Oi Montagna
    Ponto de vista muito interessante.
    Quero ver os próximos textos!
    Abraço,
    Marcelo

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    Alexandre Montagna Reply:

    Muito obrigado, brother Tessari.
    Saudade dos nossos altos papos no Skype!
    Forte abraço.

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  • Grande Montagna!
    Sempre me surpreendendo com seus textos!

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    Alexandre Montagna Reply:

    Sempre querida Juju. Obrigado pela mensagem!

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  • A última frase me tocou muito, infelizmente as vezes é muito difícil diferenciar jogador de amigo. E quem já entregou o coração a alguém, e só depois reconheceu nele um jogador? Não reprima a mágoa, encare q foi sua culpa, sua expectativa gerada q se frustrou, e agradeça ao jogador por ter te ensinado essa lição amarga. E não erres mais o alvo no próxima amor.

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